Este é um artigo novo publicado na Revista Eletrônica da FABAT:
"O que vem do alto está acima de todos"
Nesse artigo Elielson Macedo Feliciano, traz uma exegese e hermenêutica em João 3,27-36. Nela João Batista explica a diferença de natureza entre ele e Jesus, num contexto onde é necessário provar aos seguidores de João e a um judeu que Jesus é o Messias que vem do alto, numa clara seção de alta cristologia e sua consequente soteriologia."
Confira clicando no link abaixo.
http://www.fabat.com.br/posescrito/pdf/numeroatual/4elielsonartigoacimadetodos.pdf
Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2009
Terça-feira, 4 de Novembro de 2008
Publicação de artigo no site www.artigonal.com
http://www.artigonal.com/religiao-artigos/amazing-grace-de-rev-john-newton-626549.html
O artigo que se pode acessar pelo endereço acima já estreou com estrela azul, com 300 pts no ranking da www.artigonal.com
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
1ª Epístola de Pedro
Dimensão Literária
1 - Características literárias
a) Língua e estilo :
Grego correto, koiné rebuscada, com poucos erros gramaticais, koiné literária com um grau de notável elaboração de tal criatividade que dificulta achar pistas de núcleos de inspiração. Contudo a LXX é o ponto de referência (de 62 hapáx legómena, 35 presentes na LXX).
b) O uso do AT (LXX) :
Múltiplas citações ou referências. Proporcionalmente é o livro no NT que mais utiliza o AT (LXX).
Citações explícitas, ex: Ex 19, 5 e, 2,59; Lv 19,2 em 1,16 e Sl 118, 22 (LXX 117,22) em 2,7; Is 52,3-12 em 2,22-25, etc.
Referências sem citar textos concretos: a) personagens como Noé (3,20), Sara e Abraão (3,6); construção da casa de Deus (2,5); elementos do Êxodo como o cordeiro sem mancha (1,19) e outros.
A sua criatividade reside no uso elegante onde usando sempre o AT da LXX por vezes parafraseia e muda a ordem (Is 53,9.7.4.5.6 em 2,22-25), também se utiliza de argumentações, à moda rabínica, entrelaçando diversos textos como em 2,4-10 em que se utiliza de Is 28,16; Ex 19,6; Sl 118,22; Is 8,14; Is 9,2; Os 1,6.9; 2,1).
c) Relação literária com o NT
Com os Sinóticos: sofrer com paciência (3,14: Mt 5,10); comportamento como testemunho (2,12: Mt 5,16). serviço como virtude (1,13: Lc 12,35; 5,2-3: Lc 12,42-45).
Quarto Evangelho: “quem amais sem o ter visto em quem acreditais sem vê-lo ainda” (1,8; Jo 20,29).
(TÛNI e ALEGRE, 296-300, para a Dimensão Literária)
Dimensão Sócio-Histórica
a) Autoria, datação e localidade de composição e e destino
A 1Pd não consta do cânon muratoriano, assim como Hebreus, Tiago, as Joaninas e 2Pd. Apenas os exegetas mais conservadores se empenham em provar a autenticidade apostólica da primeira epístola (SIMON & BENOIT, 227). Traduzido em português as introduções, já clássicas em alguns seminários, figuram o autor B. D. Hale como exemplo conservador ao passo que Kümmel se apresenta no polo oposto.
Fugindo da discussão e aceitando-se a tese de que a epístola procede de Roma e ainda que é dirigida aos cristãos da Ásia Menor (1Pd 1,1). Podemos partir para a busca da situação da escrita da carta, para tanto importa também definir a datação.
O primeiro verso sinaliza que o cristianismo já se espalhara por toda a Ásia Menor o que não teria ocorrido antes do ano de 65 d.C.
Trata-se de uma época de discriminação social, não de perseguição estatal, mas de provocações de vizinhos podendo terminar no tribunal. A razão de tal fato se dá por estarem os cristãos pecando, aos olhos dos seus vizinhos, contra a harmonia e a convivência pacífica (harmonia e eirene) (GOPPELT, 400). Tal situação histórica se dá numa localidade e época em que os cristãos já são distinguídos dos judeus como se verifica da comparação de 1Pd 4,16 com At 11,26, quando são denominados christianoi. Isso nos leva a 64-90 d.C.
b) Tema: “A responsabilidade dos cristãos na sociedade”
A importância da carta, segundo Goppelt está no tema: “A responsabilidade dos cristãos na sociedade”.
Por viverem em situação semelhante a dos judeus, estes cristãos se autodenominavam de diáspora, denominação que perde o sentido e cai em desuso no séc. IV, época de Constantino, pois daí em diante são religião lícita no Império.
Talvez por influência do essenismo (Goppelt, 402-3), esses cristãos, mesmo estando entre compatriotas, se entendiam num êxodo, não como emigração, mas como peregrinos por causa da fé professada. O essenismo de Qumran, no entanto, realmente deixava de viver no meio do povo ao passo que os cristãos não. E o resultado é bem descrito por Goppelt:
“Em conseqüência, a condição de forasteiro se torna figura para a existência escatológica na qual são colocados pela fé: Quem obedecer aos preceitos do Sermão da montanha e ao chamado ao discipulado, esse ficará alheado do dia-a-dia da sociedade e rompe o estilo de vida usual para uma nova forma de ser homem. O êxodo que se ordena aos cristãos é essa conversão, e não a emigração da sociedade, como acontecia entre os essênios.” (GOPPELT, 404)
Dimensão Teológica
A mensagem da carta é no sentido de que o cristão deve ter uma atitude responsável nas instituições da sociedade. Escatologia não é alienação, de fato é resistência e trabalho para influenciar positivamente a sociedade. Tal se pode ver em 2,11s.
O cristão, em meio ao povo, e de maneira nenhuma longe dele, vivendo diferencialmente, motivado pelo amor de Deus se integra na comissão missionária imbuído de forte senso de responsabilidade ética.
O princípio que orienta essa ética é o “fazer o bem a toda criatura, por amor do Senhor” (GOPPELT, 404). De fato amar não é uma dimensão meramente sentimental, mas de ação.
Ao listar regras de comportamento da própria sociedade, ele usa o verbo sujeitar, que na concepção moderna destaca o “sub”, ao passo que no grego o radical taxis, ordenar, é que se impõe. Ou seja, não se trata de submeter, forçar, ou de se deixar ser forçado, mas de cumprir cada um o seu papel na ordem social. Em Rm 13,1s vemos o mesmo uso. Essa ética se baseia no direito natural, direito oriundo da natureza ou cosmo.
Ora essas regras do lar, ou as regras com respeito a relação senhor-escravo, não são invenção cristã, mas a recepção de regras conhecidas e veiculadas no mundo grego. Para os estóicos tratava-se do que se pode chamar de uma ética de relacionamento, é o que ensina Goppelt.
No entanto há uma diferença de conteúdo, no estoicismo o sábio se auto-realiza nas relações sociais ao passo que para o cristão as boas relações sociais se configuram em mandamento e por isso podem vir como regras cuja aceitação não é meramente voluntária, mas obrigatória para quem abraçou a fé cristã.
Mas não se trata de mera aceitação, mas de atitude crítica diante das regras do bom relacionamento. O cristão tem o dever do bom discernimento, e os critérios são: a) consciência, 1Pd 2,19, consciência para com Deus, e para com os semelhantes, nas palavras de Schlatter Korinther “um juízo que se forma na consciência do homem, prescrevendo-lhe o comportamento” (in GOPPELT, 408); b) quanto ao conteúdo, pois ao se ter Deus como critério, se aponta não para uma idéia aberta de Deus, mas para o conteúdo tradicional da fé do que seja a vontade revelada de Deus.
Para viver essa ética é necessário ter disposição para sofrer, contudo sofrer aqui é visto como graça.
A cristologia de 1Pd aponta para o sofrimento na vida de Jesus, pois sua morte fundamentou o seu “êxodo” (GOPPELT, 413).
É verificável que em nosso século, por vezes, se tem voltado demais para a morte e a ressurreição de Jesus Cristo em si mesmas, mas não como coroação da vida de Jesus, e 1Pd aponta para o sofrimento-morte-ressurreição como fundamento da vida no “êxodo”, a vida de Jesus é toda ela salvífica, a imitação de Jesus leva necessariamente à vida de confronto com a sociedade, mas não contra ela, mas contra as estruturas que desvalorizam o conceito cristão de ser político, ser social, ser anthropos, ser humano.
O sentido de ser humano é a vida voltada para a formação do novo homem aos moldes de Jesus Cristo, que viveu para fazer a vontade do Pai, e a vontade do Pai era o serviço de continuar a criação do homem aos moldes do novo Adão.
Jesus não tem limites em 1Pd, ele desce até as regiões dos mortos e até lá evangeliza. Com todo o respeito para a concepção cosmológica da época, mas a verdade do discurso da carta é que não há limites para a penetração da fé cristã nas estruturas mais profundas da sociedade atingindo-a de forma salvadora.
Conclusão
Aceitemos a exortação petrina, que não importa se vem de Pedro, mas que de fato a igreja primitiva aceitou como de autoridade apostólica, e em última instância é de autoridade divina, para nos orientar no sentido de uma vida participante, não alienada, responsável mas que cobra seu preço, que pode ser tão alto quanto o que Jesus e a nuvem de testemunhas (mártires) pagaram.
A fé cristã pressupõe uma vontade de Deus conhecida pela doutrina, e um ser humano concreto, inteligente, capaz de julgar caso a caso, sem se apegar a letra fria, seguindo o exemplo da hermenêutica de Cristo ao tratar de questões como o sábado, por exemplo. Sua chave hermenêutica era a finalidade última da Lei, a felicidade (salvação) do ser humano.
Bibliografia
GOPPELT, L. Teologia do Novo Testamento, 3ª ed. São Paulo: Ed. Teológica, 2002.
HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento, São paulo: Ed. Hagnos, 2001.
KÜMMEL, W.G., Introdução ao Novo Testamento, 2ª ed. São Paulo, Paulus, 1982.
SIMON, M., BENOIT, A. Judaísmo e cristianiismo de Antíoco Epifânio a Constantino. São Paulo: Pioneira: EdUSP, 1987.
TUÑI, Josep-Oriol, ALEGRE, Xavier. Escritos joaninos e cartas católicas, 2ª ed. São Paulo: Ed. A.M., 2007.
1 - Características literárias
a) Língua e estilo :
Grego correto, koiné rebuscada, com poucos erros gramaticais, koiné literária com um grau de notável elaboração de tal criatividade que dificulta achar pistas de núcleos de inspiração. Contudo a LXX é o ponto de referência (de 62 hapáx legómena, 35 presentes na LXX).
b) O uso do AT (LXX) :
Múltiplas citações ou referências. Proporcionalmente é o livro no NT que mais utiliza o AT (LXX).
Citações explícitas, ex: Ex 19, 5 e, 2,59; Lv 19,2 em 1,16 e Sl 118, 22 (LXX 117,22) em 2,7; Is 52,3-12 em 2,22-25, etc.
Referências sem citar textos concretos: a) personagens como Noé (3,20), Sara e Abraão (3,6); construção da casa de Deus (2,5); elementos do Êxodo como o cordeiro sem mancha (1,19) e outros.
A sua criatividade reside no uso elegante onde usando sempre o AT da LXX por vezes parafraseia e muda a ordem (Is 53,9.7.4.5.6 em 2,22-25), também se utiliza de argumentações, à moda rabínica, entrelaçando diversos textos como em 2,4-10 em que se utiliza de Is 28,16; Ex 19,6; Sl 118,22; Is 8,14; Is 9,2; Os 1,6.9; 2,1).
c) Relação literária com o NT
Com os Sinóticos: sofrer com paciência (3,14: Mt 5,10); comportamento como testemunho (2,12: Mt 5,16). serviço como virtude (1,13: Lc 12,35; 5,2-3: Lc 12,42-45).
Quarto Evangelho: “quem amais sem o ter visto em quem acreditais sem vê-lo ainda” (1,8; Jo 20,29).
(TÛNI e ALEGRE, 296-300, para a Dimensão Literária)
Dimensão Sócio-Histórica
a) Autoria, datação e localidade de composição e e destino
A 1Pd não consta do cânon muratoriano, assim como Hebreus, Tiago, as Joaninas e 2Pd. Apenas os exegetas mais conservadores se empenham em provar a autenticidade apostólica da primeira epístola (SIMON & BENOIT, 227). Traduzido em português as introduções, já clássicas em alguns seminários, figuram o autor B. D. Hale como exemplo conservador ao passo que Kümmel se apresenta no polo oposto.
Fugindo da discussão e aceitando-se a tese de que a epístola procede de Roma e ainda que é dirigida aos cristãos da Ásia Menor (1Pd 1,1). Podemos partir para a busca da situação da escrita da carta, para tanto importa também definir a datação.
O primeiro verso sinaliza que o cristianismo já se espalhara por toda a Ásia Menor o que não teria ocorrido antes do ano de 65 d.C.
Trata-se de uma época de discriminação social, não de perseguição estatal, mas de provocações de vizinhos podendo terminar no tribunal. A razão de tal fato se dá por estarem os cristãos pecando, aos olhos dos seus vizinhos, contra a harmonia e a convivência pacífica (harmonia e eirene) (GOPPELT, 400). Tal situação histórica se dá numa localidade e época em que os cristãos já são distinguídos dos judeus como se verifica da comparação de 1Pd 4,16 com At 11,26, quando são denominados christianoi. Isso nos leva a 64-90 d.C.
b) Tema: “A responsabilidade dos cristãos na sociedade”
A importância da carta, segundo Goppelt está no tema: “A responsabilidade dos cristãos na sociedade”.
Por viverem em situação semelhante a dos judeus, estes cristãos se autodenominavam de diáspora, denominação que perde o sentido e cai em desuso no séc. IV, época de Constantino, pois daí em diante são religião lícita no Império.
Talvez por influência do essenismo (Goppelt, 402-3), esses cristãos, mesmo estando entre compatriotas, se entendiam num êxodo, não como emigração, mas como peregrinos por causa da fé professada. O essenismo de Qumran, no entanto, realmente deixava de viver no meio do povo ao passo que os cristãos não. E o resultado é bem descrito por Goppelt:
“Em conseqüência, a condição de forasteiro se torna figura para a existência escatológica na qual são colocados pela fé: Quem obedecer aos preceitos do Sermão da montanha e ao chamado ao discipulado, esse ficará alheado do dia-a-dia da sociedade e rompe o estilo de vida usual para uma nova forma de ser homem. O êxodo que se ordena aos cristãos é essa conversão, e não a emigração da sociedade, como acontecia entre os essênios.” (GOPPELT, 404)
Dimensão Teológica
A mensagem da carta é no sentido de que o cristão deve ter uma atitude responsável nas instituições da sociedade. Escatologia não é alienação, de fato é resistência e trabalho para influenciar positivamente a sociedade. Tal se pode ver em 2,11s.
O cristão, em meio ao povo, e de maneira nenhuma longe dele, vivendo diferencialmente, motivado pelo amor de Deus se integra na comissão missionária imbuído de forte senso de responsabilidade ética.
O princípio que orienta essa ética é o “fazer o bem a toda criatura, por amor do Senhor” (GOPPELT, 404). De fato amar não é uma dimensão meramente sentimental, mas de ação.
Ao listar regras de comportamento da própria sociedade, ele usa o verbo sujeitar, que na concepção moderna destaca o “sub”, ao passo que no grego o radical taxis, ordenar, é que se impõe. Ou seja, não se trata de submeter, forçar, ou de se deixar ser forçado, mas de cumprir cada um o seu papel na ordem social. Em Rm 13,1s vemos o mesmo uso. Essa ética se baseia no direito natural, direito oriundo da natureza ou cosmo.
Ora essas regras do lar, ou as regras com respeito a relação senhor-escravo, não são invenção cristã, mas a recepção de regras conhecidas e veiculadas no mundo grego. Para os estóicos tratava-se do que se pode chamar de uma ética de relacionamento, é o que ensina Goppelt.
No entanto há uma diferença de conteúdo, no estoicismo o sábio se auto-realiza nas relações sociais ao passo que para o cristão as boas relações sociais se configuram em mandamento e por isso podem vir como regras cuja aceitação não é meramente voluntária, mas obrigatória para quem abraçou a fé cristã.
Mas não se trata de mera aceitação, mas de atitude crítica diante das regras do bom relacionamento. O cristão tem o dever do bom discernimento, e os critérios são: a) consciência, 1Pd 2,19, consciência para com Deus, e para com os semelhantes, nas palavras de Schlatter Korinther “um juízo que se forma na consciência do homem, prescrevendo-lhe o comportamento” (in GOPPELT, 408); b) quanto ao conteúdo, pois ao se ter Deus como critério, se aponta não para uma idéia aberta de Deus, mas para o conteúdo tradicional da fé do que seja a vontade revelada de Deus.
Para viver essa ética é necessário ter disposição para sofrer, contudo sofrer aqui é visto como graça.
A cristologia de 1Pd aponta para o sofrimento na vida de Jesus, pois sua morte fundamentou o seu “êxodo” (GOPPELT, 413).
É verificável que em nosso século, por vezes, se tem voltado demais para a morte e a ressurreição de Jesus Cristo em si mesmas, mas não como coroação da vida de Jesus, e 1Pd aponta para o sofrimento-morte-ressurreição como fundamento da vida no “êxodo”, a vida de Jesus é toda ela salvífica, a imitação de Jesus leva necessariamente à vida de confronto com a sociedade, mas não contra ela, mas contra as estruturas que desvalorizam o conceito cristão de ser político, ser social, ser anthropos, ser humano.
O sentido de ser humano é a vida voltada para a formação do novo homem aos moldes de Jesus Cristo, que viveu para fazer a vontade do Pai, e a vontade do Pai era o serviço de continuar a criação do homem aos moldes do novo Adão.
Jesus não tem limites em 1Pd, ele desce até as regiões dos mortos e até lá evangeliza. Com todo o respeito para a concepção cosmológica da época, mas a verdade do discurso da carta é que não há limites para a penetração da fé cristã nas estruturas mais profundas da sociedade atingindo-a de forma salvadora.
Conclusão
Aceitemos a exortação petrina, que não importa se vem de Pedro, mas que de fato a igreja primitiva aceitou como de autoridade apostólica, e em última instância é de autoridade divina, para nos orientar no sentido de uma vida participante, não alienada, responsável mas que cobra seu preço, que pode ser tão alto quanto o que Jesus e a nuvem de testemunhas (mártires) pagaram.
A fé cristã pressupõe uma vontade de Deus conhecida pela doutrina, e um ser humano concreto, inteligente, capaz de julgar caso a caso, sem se apegar a letra fria, seguindo o exemplo da hermenêutica de Cristo ao tratar de questões como o sábado, por exemplo. Sua chave hermenêutica era a finalidade última da Lei, a felicidade (salvação) do ser humano.
Bibliografia
GOPPELT, L. Teologia do Novo Testamento, 3ª ed. São Paulo: Ed. Teológica, 2002.
HALE, B. D. Introdução ao Novo Testamento, São paulo: Ed. Hagnos, 2001.
KÜMMEL, W.G., Introdução ao Novo Testamento, 2ª ed. São Paulo, Paulus, 1982.
SIMON, M., BENOIT, A. Judaísmo e cristianiismo de Antíoco Epifânio a Constantino. São Paulo: Pioneira: EdUSP, 1987.
TUÑI, Josep-Oriol, ALEGRE, Xavier. Escritos joaninos e cartas católicas, 2ª ed. São Paulo: Ed. A.M., 2007.
Quarta-feira, 15 de Outubro de 2008
Destaque da análise
Atendendo a pedidos destaquei aqui só a parte da análise. O texto integral foi postado anteriormente. Agradeço a todos que têm colaborado na divulgação desse Blog.
Em breve acrescentarei novos artigos.
Amazing Grace - uma análise do hino
Da letra do hino Amazing Grace quero ressaltar o estilo de oposições, que muito lembra o tipo de argumentação que o Apóstolo Paulo utilizava com grande maestria em seus escritos. Mas o que fica mais evidente, e seria o caminho mais correto de analisar os hinos de Newton, seria a influência sofrida por ele da hinódia bíblica, sobretudo os salmos.
Vamos focar aqui alguns exemplos de paralelismo antitéticos, próprio do saltério, suficentes para delinear a sua força poética e o vigor das imagens bíblicas evocadas e que fazem parte da memória dos cristãos acostumados com a Bíblia.
Vejamos:
1) Amazing grace / saved a wretch – sublime graça / salvou um desgraçado
Aqui encontramos um paralelismo antitético que opõe graça (grace) a desgraçado (wretch). Aqui se releva o paradoxo criado, pois a graça salva o desprovido de graça, o sujeito desgraçado, o infeliz. Apelando, dessa forma, ao paradoxo, ressalta o alcance infinito da graça. O ensino de Paulo é evocado, pois na figura do sujeito wretch abunda o pecado e este é o locum da (Amazing ) Grace, pois segundo as palavras paulinas “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5,20).
2) lost / found - perdido / encontrado
Encontramos também um paralelismo antitético do campo semântico da perda, de um lado o perdido , de outro o encontrado. De fato a imagem que aqui é evocada é bíblica, trata-se da parábola de Jesus conhecida como Filho Pródigo, quando o pai, se dirigindo ao outro filho diz “este teu irmão estava morto e revivieu, tinha se perdido e foi achado” (Lc 15,32).
3) was blind / now i see – era cego / agora eu vejo
Mais uma vez a antítese é posta em paralelo, e outra imagem bíblica é evocada, agora a de um relato de cura, quando alcançado pela graça curadora de Jesus um jovem testemunha “eu era cego, e agora vejo” (Jo 9, 25).
4) taught my heart to fear / and (...) my fears relieved – ensinou meu coração a temer / aliviou meus medos
O que dizer da beleza do paralelismo antitético que se utiliza da mesma palavra (fear) com dois sentidos diferentes no contexto? Não me parece forçoso ver aqui uma evocação de 2Cor 7,15, com a expressão paulina “temor e tremor”, (gr.: phobou kaí tromou; ing.: fear and trembling). Pois a graça que o levou a temer a Deus é a mesma que o aliviou dos temores da vida. Cabe lembrar aqui a experiência de marinheiro náufrago e a evocação da imagem bíblica correspondente, a dos discípulos em meio a tempestade.
É demasiado Amazing (maravilhoso, sublime) a seqüência de imagens bíblicas que se sucedem em tão poucas palavras. Como se não bastasse estão estruturadas de forma familiar ao conhecedor das Escrituras Sagradas, segundo a poética tão conhecida dos salmos. Considerando que tal peça tem como seu locum próprio a liturgia, já se pode entender como Amazing Grace atravessou o do séc. XVIII até o XXI sem perder o vigor.
A conversão, ou a experiência sentida de transformação se revela na vida, não de forma mágica e imediata, mais nas opções que o sujeito agraciado vai experimentando e na medida que se abre ao transcedente.
Tal sujeito se abre ao transcedente voltando-se para o ser humano, e busca desarticular as estruturas desumanizantes de seu tempo, a mais gritante, a escravidão do seu semelhante. O Rev. John Newton foi importante de várias maneiras, mas em especial influenciando William Wilberforce, em quem deixou sua marca, o que se fez notar durante a vida deste último.
A História de William Wilberforce ganhou um filme, Amazing Graceviii, propositadamente homônimo do hino do Rev. John Newton. Esse parlamentar inglês desejou ser um ministro do evangelho mas acabou sendo um cristão atuante na sociedade de sua época, no seu cuidado para com os pobres e na sua luta vitoriosa contra a escravidão. Assim como John Newton ele não experimentou sua espiritulidade distante da vida cotidiana, mais imerso nos problemas mais profundos de sua época.
O grande abolicionista brasileiro, Joaquim Nabuco, escrevia no Jornal do Comércio sob a pseudonímia de Wilberforce, o que por si só já demonstra o alcance da influência do espírito abolicionista do inglês. Nos Estados Unidos ninguém menos que Abraham Lincoln compartilhava a visão de Wilberforce.ix
Podemos observar que o homem voltado apenas para as suas necessidades imediatas se coloca dentro das estruturas do mundo, mas quando tem o seu espírito iluminado pela Graça pode ver com clareza as estruturas desumanizantes e, removendo a cegueira, responder a graça divina e transformar-se a si mesmo e ao mundo.
No presente século, a espiritualidade é experimentada e entendida de outra maneira, nesse nosso contexto de pós-modernidade impera uma espiritualidade individualista, falta para nós a percepção de uma graça atuante na sociedade, modificando as estruturas que ainda escravizam o ser humano, e ser humano sem graça não é outra coisa senão um escravo desgraçado, perdido, cego, amedrontado. Adjetivos tão familiares em nosso século.
Em breve acrescentarei novos artigos.
Amazing Grace - uma análise do hino
Da letra do hino Amazing Grace quero ressaltar o estilo de oposições, que muito lembra o tipo de argumentação que o Apóstolo Paulo utilizava com grande maestria em seus escritos. Mas o que fica mais evidente, e seria o caminho mais correto de analisar os hinos de Newton, seria a influência sofrida por ele da hinódia bíblica, sobretudo os salmos.
Vamos focar aqui alguns exemplos de paralelismo antitéticos, próprio do saltério, suficentes para delinear a sua força poética e o vigor das imagens bíblicas evocadas e que fazem parte da memória dos cristãos acostumados com a Bíblia.
Vejamos:
1) Amazing grace / saved a wretch – sublime graça / salvou um desgraçado
Aqui encontramos um paralelismo antitético que opõe graça (grace) a desgraçado (wretch). Aqui se releva o paradoxo criado, pois a graça salva o desprovido de graça, o sujeito desgraçado, o infeliz. Apelando, dessa forma, ao paradoxo, ressalta o alcance infinito da graça. O ensino de Paulo é evocado, pois na figura do sujeito wretch abunda o pecado e este é o locum da (Amazing ) Grace, pois segundo as palavras paulinas “onde o pecado abundou, superabundou a graça” (Rm 5,20).
2) lost / found - perdido / encontrado
Encontramos também um paralelismo antitético do campo semântico da perda, de um lado o perdido , de outro o encontrado. De fato a imagem que aqui é evocada é bíblica, trata-se da parábola de Jesus conhecida como Filho Pródigo, quando o pai, se dirigindo ao outro filho diz “este teu irmão estava morto e revivieu, tinha se perdido e foi achado” (Lc 15,32).
3) was blind / now i see – era cego / agora eu vejo
Mais uma vez a antítese é posta em paralelo, e outra imagem bíblica é evocada, agora a de um relato de cura, quando alcançado pela graça curadora de Jesus um jovem testemunha “eu era cego, e agora vejo” (Jo 9, 25).
4) taught my heart to fear / and (...) my fears relieved – ensinou meu coração a temer / aliviou meus medos
O que dizer da beleza do paralelismo antitético que se utiliza da mesma palavra (fear) com dois sentidos diferentes no contexto? Não me parece forçoso ver aqui uma evocação de 2Cor 7,15, com a expressão paulina “temor e tremor”, (gr.: phobou kaí tromou; ing.: fear and trembling). Pois a graça que o levou a temer a Deus é a mesma que o aliviou dos temores da vida. Cabe lembrar aqui a experiência de marinheiro náufrago e a evocação da imagem bíblica correspondente, a dos discípulos em meio a tempestade.
É demasiado Amazing (maravilhoso, sublime) a seqüência de imagens bíblicas que se sucedem em tão poucas palavras. Como se não bastasse estão estruturadas de forma familiar ao conhecedor das Escrituras Sagradas, segundo a poética tão conhecida dos salmos. Considerando que tal peça tem como seu locum próprio a liturgia, já se pode entender como Amazing Grace atravessou o do séc. XVIII até o XXI sem perder o vigor.
A conversão, ou a experiência sentida de transformação se revela na vida, não de forma mágica e imediata, mais nas opções que o sujeito agraciado vai experimentando e na medida que se abre ao transcedente.
Tal sujeito se abre ao transcedente voltando-se para o ser humano, e busca desarticular as estruturas desumanizantes de seu tempo, a mais gritante, a escravidão do seu semelhante. O Rev. John Newton foi importante de várias maneiras, mas em especial influenciando William Wilberforce, em quem deixou sua marca, o que se fez notar durante a vida deste último.
A História de William Wilberforce ganhou um filme, Amazing Graceviii, propositadamente homônimo do hino do Rev. John Newton. Esse parlamentar inglês desejou ser um ministro do evangelho mas acabou sendo um cristão atuante na sociedade de sua época, no seu cuidado para com os pobres e na sua luta vitoriosa contra a escravidão. Assim como John Newton ele não experimentou sua espiritulidade distante da vida cotidiana, mais imerso nos problemas mais profundos de sua época.
O grande abolicionista brasileiro, Joaquim Nabuco, escrevia no Jornal do Comércio sob a pseudonímia de Wilberforce, o que por si só já demonstra o alcance da influência do espírito abolicionista do inglês. Nos Estados Unidos ninguém menos que Abraham Lincoln compartilhava a visão de Wilberforce.ix
Podemos observar que o homem voltado apenas para as suas necessidades imediatas se coloca dentro das estruturas do mundo, mas quando tem o seu espírito iluminado pela Graça pode ver com clareza as estruturas desumanizantes e, removendo a cegueira, responder a graça divina e transformar-se a si mesmo e ao mundo.
No presente século, a espiritualidade é experimentada e entendida de outra maneira, nesse nosso contexto de pós-modernidade impera uma espiritualidade individualista, falta para nós a percepção de uma graça atuante na sociedade, modificando as estruturas que ainda escravizam o ser humano, e ser humano sem graça não é outra coisa senão um escravo desgraçado, perdido, cego, amedrontado. Adjetivos tão familiares em nosso século.
Domingo, 12 de Outubro de 2008
Amazing Grace de Rev. John Newton
Amazing grace! (how sweet the sound)
That sav’d a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
Was blind, but now I see.
’Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears reliev’d;
How precious did that grace appear,
The hour I first believ’d!
Thro’ many dangers, toils and snares,
I have already come;
’Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.
The Lord has promis’d good to me,
His word my hope secures;
He will my shield and portion be,
As long as life endures.
Yes, when this flesh and heart shall fail,
And mortal life shall cease;
I shall possess, within the veil,
A life of joy and peace.
The earth shall soon dissolve like snow,
The sun forbear to shine;
But God, who call’d me here below,
Will be forever mine.
That sav’d a wretch like me!
I once was lost, but now am found,
Was blind, but now I see.
’Twas grace that taught my heart to fear,
And grace my fears reliev’d;
How precious did that grace appear,
The hour I first believ’d!
Thro’ many dangers, toils and snares,
I have already come;
’Tis grace has brought me safe thus far,
And grace will lead me home.
The Lord has promis’d good to me,
His word my hope secures;
He will my shield and portion be,
As long as life endures.
Yes, when this flesh and heart shall fail,
And mortal life shall cease;
I shall possess, within the veil,
A life of joy and peace.
The earth shall soon dissolve like snow,
The sun forbear to shine;
But God, who call’d me here below,
Will be forever mine.
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